PIRA indica: Boas leituras para as férias

Dois livros importantes para compreendermos a realidade da construção social da loucura e do encarceramento, assim como das alianças entre a lógica manicomial e a lógica penal. Aqui são eles:

Revelações da Casa Dos Loucos (Miguel Ángel Añez)

livro pira

Miguel é psicólogo clínico e morador de Florianópolis, com mais de vinte anos de experiência e tenho trabalhado em diversos países. Aplicando a Psicologia Clínica de Sartre, a narrativa do livro Revelações da Casa dos Loucos se desenvolve no Hospital Psiquiátrico Judicial de Florianópolis e desnuda a incapacidade da psiquiatria para tirar as pessoas desse escuro e desesperante labirinto das perturbações psicológicas. “Ninguém nasce condenado a tornar-se louco; a loucura é fabricada”, esclarece o psicólogo Miguel Ángel. Nas páginas desta obra, o leitor conhece e compreende o “mundo” dos loucos e as suas loucuras, como também, a impostura da psiquiatria e os seus silêncios.

Para acesso: clique no link.

O Crime Louco (Ernesto Venturini, Domenico Casagrande e Lorenzo Toresini).
Tradução de

Maria Lúcia Karam
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Livro produzido no Brazil com a ajuda do Conselho Federal de Psicologia. São casos paradigmáticos de junção do direito penal com a psiquiatria, um contra o outro e nãocomo no início dessa junção amarga de um com o outro: sobra de soma zero. Os hospitais psiquiátricos judiciários da Itália, os manicômios judiciários, ou hospitais de custódia e tratamento psiquiátricos, como diz a lei, no Brasil sempre operaram em relação ao crime do louco de modo a fazer com que fossem tratados de maneira a cumprir a profecia do afastamento para sempre, a segregação eterna não prevista na legislação brasileira, mas que ainda tem espaço no ergástulo italiano. Pelo menos no mundo sombrio da “previsão legal”.
Leitura em .pdf nesse link: O Crime Louco.
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Retorno das atividades em 2013

O Coletivo PIRA retomará suas atividades nesse mês de fevereiro. Porque o Movimento Antimanicomial não pode parar!

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Próximas atividades:

Na próxima segunda 18/02/2013, haverá o Churrasco de Recepção aos novos estudantes de Saúde da UFSC, para todos se sentirem em CASA. Os Centros Acadêmicos da Saúde (CASA) estão organizando esse encontro que é uma ótima oportunidade para nos (re)vermos e confraternizarmos. Evento no facebook aqui.

Ainda nessa semana, nosso encontro para o Planejamento de 2013 do Coletivo PIRA será no dia 28 de fevereiro, horário a definir (possivelmente no final da tarde), na UFSC. Evento no facebook aqui.

Nossos contatos:

Facebook: Coletivo PIRA
E-mail: pirantimanicomial@gmail.com

O equívoco das internações involuntárias em São Paulo

Com amplo trabalho realizado com dependentes químicos, o psicanalista Antonio Lancetti* questiona a decisão do governo de São Paulo de implantar a internação involuntária para diminuir o número de usuários de drogas nas ruas.

Texto originalmente publicado em Revista Brasileiros (clique aqui)

Foto de Rafael Vilela

Foto de Rafael Vilela

Por que o Governo do Estado decidiu justamente agora deflagrar novamente uma caçada aos usuários de crack do centro de São Paulo?

Por que agora depois do fracasso de um ano de prisões, internações involuntárias e voluntárias por “convencimento obrigatório”- isto é, pessoas que assinaram sua internação para não serem indiciadas como traficantes, pois a lei não especifica qual a quantidade que diferencia usuário de traficante?

Por que justamente agora que o governo municipal está iniciando uma nova gestão redeflagram uma guerra contra os drogados pobres e miseráveis da cidade?

Por que reiniciar outra guerra urbana depois da malsucedida guerra contra o “crime organizado” que resultou na morte de tantos inocentes?

É absolutamente certo que em determinadas situações extremas é necessário internar uma pessoa como medida de proteção, quando se conhece a pessoa, sua história e se tem construído um vínculo de confiança, mas isto deve ser uma exceção e não uma regra. As internações feitas no atacado além de constituir um flagrante desrespeito aos direitos humanos são ineficazes pelas seguintes razões:

– Nas cidades onde não há repressão policial como em São Paulo, os usuários são muito mais fáceis de aceder e tratar e não acendem, como aqui, os cachimbos na cara de qualquer um. Escondem-se para fumar. Ainda respeitam cuidadores e autoridades.

– A quase totalidade de pessoas internadas involuntariamente quando encaminhadas às Unidades de Acolhimento Provisório (em São Paulo tem várias delas destinadas a dar um tempo de seis meses para as pessoas organizem suas vidas) não conseguiram ficar por mais de alguns dias e não aderem a qualquer tratamento, eles dizem: “passei seis meses rezando, já paguei, agora já posso usar”. A maioria dos usuários da cracolândia já foi internada.

– É muito deprimente para médicos, enfermeiros e agentes de saúde que com tanta dedicação conseguem começar a tratar de suas infecções, de suas doenças sexualmente transmissíveis ficarem sabendo que a polícia e a Guarda Municipal nos famosos “rapas” lhes tomam as mochilas com os documentos e os antibióticos ou antivirais. Na prática a ação policial só atrapalhou a ação da saúde.

– Na prática, quando se interna alguém com sérias dificuldades de saúde os funcionários de hospitais públicos têm muita resistência e expressam rejeição tanto de pacientes como de agentes de saúde e enfermeiros que os acompanham. É preciso capacitar esses técnicos para essa difícil tarefa.

– Os funcionários das unidades de saúde da periferia de São Paulo hoje se vem obrigados a lidar com o fenômeno de novas concentrações de usuários de crack. Eles se espalharam pela cidade e se tornaram mais arredios.

Nos EUA foram presas milhões de pessoas e não conseguiram exterminar o consumo dessa droga para pobres. Enquanto a droga é proibida o mercado negro torna-se incontrolável. Nenhuma droga adulterada sumiu do mercado por proibição, algumas foram substituídas por outras como aqui a cocaína injetável pelo crack.

Pensemos: como o crack pode ser considerado uma epidemia se a substância é inerte? Quem paga o advogado da centena de pessoas que esta presa? A que se dedicarão quando saírem daqui a alguns anos da prisão?

A que lugares essas pessoas serão conduzidas? Quem ler estas linhas tem ideia dos locais onde essas pessoas passarão meses de suas vidas?

Por que insistir com ações desintegradas e não realizar uma ação conjunta com as novas autoridades municipais?

No Brasil inteiro estão ocorrendo capacitações de policiais para atuarem em parceria com as redes de saúde e assistência. Por que São Paulo não quer aprender?

Não se pode resolver com medidas simplistas problemas tão complexos. E é por isso que os municípios que adotaram a Redução de Danos e estão criando suas redes de Consultórios na Rua, leitos para desintoxicação em hospitais gerais, UPAS para pacientes graves, Centros de Atendimento Psicossociais CAPS A D (Alcool e outras drogas) de funcionamento durante as 24 horas do dia, casas para reorganizar a reabilitação e a vida com trabalho, moradia, relação com a família e a comunidade, estão avançando. É preciso conhecer o sério e belo trabalho de São Bernardo do Campo.

Pode ser que desde o ponto de vista do marketing a operação seja, por pouco tempo, um sucesso, mas ela vai dificultar o trabalho sanitário e corremos o risco de ser penalizados mundialmente.

*Psicanalista, autor de Clínica Peripatética (Editora Hucitec)

PIRA indica: Filmes no blog Embriaguez Artística

Em texto de Victor Silveira, o blog Embriaguez Artística apresenta uma proposta de 10 filmes sobre sujeitos em situação de sofrimento psíquico. Como diz no post, “a importância do cinema se refere às transformações na experiência estética e na percepção sensorial das coletividades humanas” e sabemos da importância dos recursos audiovisuais para a ampliação de percepções e ideias sobre a existência humana.

Recomendamos a leitura: clique aqui !

Saudações Antimanicomiais,
Coletivo PIRA

Ato Unificado: Dia Internacional dos Direitos Humanos

O dia 10 de dezembro foi instituído como o Dia Internacional dos Direitos Humanos a partir de 1948, na ocasião da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Neste ano, uma série de movimentos sociais e organizações estão organizando um ato unificado no Centro de Florianópolis, a partir das 17h, para dar visibilidade às reivindicações. O Coletivo PIRA assina a convocatória e estará lá marcando a presença da Luta Antimanicomial de SC!

Evento no Facebook: Clique Aqui.

Segue a convocatória:

ATO PÚBLICO UNIFICADO: DIA INTERNACIONAL DOS DIREITOS HUMANOS

O ano de 2012 vem testemunhando o emergir de uma outra Florianópolis! Das bases da cidade levantam-se cada dia mais as vozes dos trabalhadores pobres e dos marginalizados, rompendo a superfície mercadológica da Ilha da Magia. Revolta por vezes irracional e violenta, como nos recentes atentados aos ônibus, que suscitaram a repressão violenta pela polícia militar, mais uma vez com a transformação das comunidades de periferia em verdadeiros campos

de concentração. Mas o canto do povo trabalhador não é só de dor, é sim um grito por dignidade, é o estalar de uma luta por direitos.O que temos presenciado cada dia com mais força em Florianópolis é a luta organizada, política e pacífica do povo trabalhador por direitos sonegados pelo poder público e violados por uma sociedade que explora, oprime e marginaliza. Desde as greves dos bancários, dos trabalhadores do transporte público, dos correios, dos servidores e professores da rede estadual e da universidade federal e a corajosa luta hoje travada pelos trabalhadores da saúde estadual até a marcha das vadias por liberdade, os atos de solidariedade aos índios Guarani-Kaiowa, a luta contra o racismo representada pelo conjunto de atividades do movimento negro na última Semana da Consciência Negra, a luta em defesa da memória dos que tombaram na luta contra a ditadura e pela criação da Comissão da Verdade em nosso estado, o movimento dos familiares e amigos de presos denunciando à tortura na Penitenciária de São Pedro de Alcântara e o ressurgir da luta por moradia com atos no Norte da Ilha e a ocupação Contestado que vive hoje sob ameaça de despejo.

Nesta segunda-feira dia 10 dezembro é comemorado o Dia Internacional dos Direitos Humanos, data instituída em 1948 na ocasião da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Para o povo trabalhador a verdade dos direitos humanos é uma só: nossos direitos só valem de verdade quando o povo organizado vai à luta, toma as ruas e reivindica sua efetividade contra os poderes instituídos! O respeito pleno à dignidade humana e realização das necessidades humanas serão conquistas da nossa luta, sem a luta organizada não passam de palavras bonitas no papel!

É neste sentido que as organizações, movimentos e entidades abaixo-assinadas convocam o conjunto do movimento popular, sindical e de juventude de Florianópolis para mais uma vez mostrar sua força na construção de um Ato Público Unificado neste Dia Internacional dos Direitos Humanos:

ATO PÚBLICO UNIFICADO: DIA INTERNACIONAL DOS DIREITOS HUMANOS
DATA: 2ª feira 10 de dezembro de 2012
LOCAL: em frente à Catedral Metropolitana de Florianópolis
HORA: 17:00 horas.

Não ao despejo da Ocupação Contestado!
Pelo direito a moradia e por uma Cidade voltada para o povo trabalhador!
Contra a criminalização da pobreza e dos movimentos sociais!
Pela apuração rigorosa das denúncias de tortura na Penitenciária de São Pedro de Alcântara!
Pela criação da Comissão da Verdade na Assembléia Legislativa!

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Assinam esta convocatória:Brigadas Populares

Coletivo Catarinense pela Memória, Justiça e Verdade

Grupo de Amigos e Familiares de Pessoas em Privação de Liberdade – GAFPPL-SC

Ocupação Contestado

Sindicato dos Trabalhadores na Indústria de Energia em Florianópolis e Região – SINERGIA

Sindicato dos Empregados em Estabelecimentos Bancários – Florinaópolis – SEEB

Associação Juízes para a Democracia

Sindicato dos Trabalhadores do Serviço Público Estadual de Santa Catarina – SINTESPE

Memorial dos Direitos Humanos – UFSC

Coletivo Domínio Público

Movimento Passe Livre

ASSIBGE-SC

PIRA (Coletivo PIRA – Produção Integrada de Resistência Antimanicomial, Núcleo Florianópolis de Luta Antimanicomial)

SinPsi-SC – Sindicato dos Psicologos de Santa Catarina

MST- SC

Consulta Popular- SC

Sindicato dos Servidores do Poder Judiciário de Santa Catarina – SINJUSC

Teatro do CAPS convida para o maior espetáculo da Terra: “Seu Aqueu e seus filhos!”

O grupo de teatro do CAPS-II Ponta do Coral, convida a todos para assistir a peça “Seu Aqueu e seus filhos”!

O maior espetáculo da terra acontecerá nesta sexta feira, 23/11, às 14h, na SEPEX.

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A peça se trata de uma criação coletiva do grupo de teatro para usuários do CAPS, projeto de extensão do Curso de Psicologia da UFSC, via mar-aqui-tô, vulgo Marquito.

A história acontece em torno de um pai tirano que não aceita e não consegue lidar com a diferença de seus filhos: um gay, uma gaya, um militante da Luta Antimanicomial, um que pensa ser uma abelhinha, um usuário de drogas, Simão Bacamarte, um tourettiano e uma mulher de 30 anos que não quer se casar.

Esperamos vocês lá!

Pira indica: Filme

Marat Sade –  Reino Unido, 1966 – baseado na peça escrita por Peter Weiss em 1960.Imagem

 

Dentro de um manicômio, Marquês De Sade dirige a peça “Perseguição e Assassinato de Jean-Paul Marat”. O cenário é uma “sala de banhos” de um manicômio, os atores são os próprios internos e a platéia é a burguesia parisiense, separada dos atores por grades de ferro, como as de uma prisão. Ainda dentro do ambiente da peça está o diretor do hospital, que intervem com frequência censurando as cenas.

Jean Paul Marat foi um dos líderes da Revolução Francesa, o contexto de seu assasinato é aqui utilizado para incitar questões como política, sexualidade e violência social. Além do assassinato de Marat, outra parte desta peça pode ser considerada verídica: Sade costumava mesmo praticar um tipo de teatro terapêutico em sua estada involuntária no manicômio de Charenton.

Vale lembrar que foi na época da gravação do filme (anos 60) que os pioneiros da crítica à psiquiatria clássica, como Franco Basaglia e David Cooper, passaram a se manifestar com mais veemência contra as práticas manicomiais.

Além disso, Michel Foucault cita Marquês De Sade em sua obra “História da Loucura na Idade Clássica”, como o primeiro homem a ser diagnosticado como perigoso devido a seus “desvios sexuais”. Até então estes eram considerados casos médicos, e não de polícia. Isso acontece porque, primeiramente Sade foi considerado louco, mas depois seu diagnóstico fora revisto e ele considerado um criminoso moral, que estaria melhor numa cadeia do que num hospício.